Foto: koeln-hbf.de

[Crônica] O dia que dormi na estação de trem de Colônia

Nossa, que Catedral linda!”, digo em pensamento ao sair da Kölner Dom, a Catedral de Colônia. Já visitei tudo o que eu queria da cidade, agora só falta assistir à missa.

Para passar o tempo, sento na escadaria lateral que dá acesso à Catedral. Não estou sozinha, tem um monte de turistas e colegiais. Na verdade, tem gente de todas as idades. Acabo de ver um senhor bebendo cerveja.

“São 17h30. É, já está na hora da cerveja”, penso.

— Hi! Wherre arre you frrrrom? — pergunta um moço com sotaque, forçando o “r” das palavras. Sabe quando o paulista da capital fala porta, levando a língua ao céu da boca? Era bem parecido.

Assustada e desapontada por logo entregar que sou estrangeira, respondo:

— Hmm, here!

— Rrreally? — ele pergunta forçando o “r”.

Desconfiada, respondo.

— It’s a joke. I’m from Spain. — não sei  porque respondi que sou da Espanha. Acho que foi o instinto.

E mais uma vez meu instinto acerta. O cara estranho se aproxima cada vez mais de mim e me convida para tomar uma cerveja. Eu, esperta que sou, não aceito.

Saio de lá para me afastar dele e sento em um café em frente a estação central de Colônia. Observo de longe o cara esquisito e vejo que ele também está me olhando. Era início da viagem e estava com dinheiro na mochila, iPad, celular e máquina fotográfica, porque não quis deixar coisas de valor na mala que ficou na salinha. “Será que esse moço está me seguindo há muito tempo?” Meu pensamento vai à mil.

Incomodada, entro na estação central para fugir dele. Aproveito para pedir informações sobre o trem que tenho que pegar às 22h. Mais uma vez meu instinto acerta.

— Olá! Boa tarde, gostaria de saber se esse trem está confirmado. — pergunto em inglês ao moço do guichê e entrego o bilhete impresso que havia comprado há 3 meses.

Ele pega o papel, dá uma olhada, aperta um monte de tecla no computador e me entrega de volta.

— Foi cancelado. — em inglês, ele responde secamente.

Cancelado? Meu coração bate desconpaçado.

— Ãhn? Como assim cancelado? — pergunto incrédula! — Comprei este bilhete há três meses e não recebi nenhum e-mail falando que estava cancelado.

Ele fala um monte de coisa em alemão. Óbvio que não entendo. O mais próximo que sei de alemão são os pontos turísticos que acabei de visitar. Olho assustada para ele e digo que não falo alemão.

— Você fala italiano? — ele pergunta em italiano. Como é parecido com português, entendo. Apesar de não falar italiano, respondo:

— Niente. — lembro-me apenas dessa palavra em italiano. — Apenas português, inglês e espanhol — agora digo em inglês.

Ele balbucia mais algumas palavras em alemão ou italiano, já não sei mais.

— Por favor, como faço para pegar o trem para Berlim, já que esse foi cancelado? — pergunto em inglês.

Ele não diz nada. Estende a mão e pega o papel que está no balcão. Passam alguns minutos e ele devolve o bilhete.

— Então, como eu faço? — pergunto.

— Troquei o horário do trem para às 4h29. — em inglês, ele responde.

Olho em seus olhos na esperança dele explicar o que estava acontecendo e ele, apenas, fica me encarando.

Senti raiva. Muita raiva!

— Você pode me emprestar a caneta? — aponto para a caneta na mão dele. Ele me entrega sem dizer nada.

— Por favor, confirme o horário do trem e qual plataforma devo pegar. — peço educadamente.

— 4h29. Plataforma 4. — ele diz.

— 4h29 da manhã, ou seja, daqui a nove horas, certo? — pergunto.

Ele diz que sim com a cabeça. Confirmo mais uma vez o horário de saída do trem e a plataforma. Ele diz que sim de novo com a cabeça e insiste em não dizer mais nada.

Saio da fila do balcão de informações e o relógio aponta 19h32. “O que eu vou fazer?”, pergunto mentalmente. Lembro-me que tenho que pegar minha mala na salinha ao lado até às 22h, senão só amanhã a partir das 6h. Não dá mais tempo de assistir à missa, porque ela começou às 19h.

“O que eu faço?”, pergunto-me em pensamento. “Vou pegar a mala e procurar um lugar para dormir pelo menos até às 4h da manhã”, eu mesma respondo.

Pego minha mala e sigo em direção ao hotel colado à estação.

Não tem mais vaga. Acesso a internet da Starbucks – que é do lado do hotel – e tento achar uma hospedagem barata e perto da estação. Não tem. Ou é cara ou não tem mais vaga.

Desesperada, ando sem rumo pela praça. “Preciso decidir agora o que vou fazer!”, penso.

— Vou ter que dormir na estação. — finalmente digo.


Como foi minha noite na estação de trem de Colônia

Contando, não parece tão desesperador. Aliás, no início até achei graça: meu segundo trem do mochilão tinha sido cancelado e teria que dormir na estação. Bem, não parecia ruim, sendo que havia comprado o bilhete noturno para dormir no trem. Foi só um contratempo, em que houve mudanças de planejamento.

Só que não sabia que minha primeira noite em solo alemão seria tão desesperadora.

Tentei ao máximo ficar acordada e entrei em todas as lojas da estação. Conheço-a de “cabo à rabo”. Era como se o mapa abaixo estivesse fixado em minha memória.

Koeln-hbf - mapa

Clique no mapa para ampliar!

Comi por volta das 21h e a ideia era comer alguma coisa mais tarde. Mas não comi, porque a estação fecha às 22h e nenhuma lojinha sequer fica aberta.

Não queria ficar na rua, porque estava muito frio e naquela hora só tinha gente esquisita. Sobrou, então, só o interior da estação.

Só que o que parecia ser mais uma experiência de viagem, tornou-se um pesadelo! Foi a noite mais louca da minha vida.


O que aconteceu

Quando tentei dormir pela primeira vez, sentada em uma cadeira no último corredor próximo à saída Breslauer Platz, acordei poucos minutos depois, pois ouvi uma correria e percebi que a polícia gritava com um moço que tinha acabado de fazer xixi, praticamente ao meu lado. O líquido escorria para onde eu estava, enquanto a polícia levava o moço para fora da estação. Tive de procurar outro lugar para sentar.

Achei um banco vazio no corredor próximo à Starbucks, perto da saída que vai para a Catedral. Estendi minhas pernas sobre a mala e coloquei a mochila no apoio de braço para encostar a cabeça. Não estava deitada, mas foi a maneira que encontrei para ficar mais à vontade. Não sei quantos minutos depois, fui acordada com a polícia batendo em meu ombro porque não eu podia deitar no banco. Sonolenta, levantei-me e decidi não dormir.

Dei mais uma volta pela estação escura. Somente ouvia a gritaria do lado de fora. Cansada, procurei um lugar para sentar. Não achei. Vários refugiados, moradores de rua e outros viajantes como eu, utilizavam a estação como moradia.

Sentei-me no chão e acabei adormecendo sobre a mochila. Novamente, fui acordada pela polícia informando que não eu podia sentar no chão.

Tudo isso aconteceu entre às 22h e à 1h da manhã. O tempo não passava! De certo, dei algumas cochiladas no restante da noite, mas acordava assustada quando alguém passava por mim falando alto ou correndo.

Por sorte, às 4h da manhã algumas lanchonetes abriram as portas e consegui me distrair e aproveitei para comer algo, pois estava morta de fome.

Assim foi minha primeira noite em solo germânico da minha Eurotrip de 2015. Eu, a estação, alguns viajantes, a polícia alemã e um monte de refugiados desabrigados.


Serviço de apoio com alojamento da estação de trem

Hoje, depois que escrevi essa crônica, entrei no site da Koeln-hbf para procurar algumas fotos e vi que eles tem um serviço de Bahnhofsmission (Homeless Assistance Center), onde dão assistência e alojamento para os sem-teto. Será que eu me encaixaria nesse serviço e poderia ter tido ajuda?  😉

De qualquer maneira, achei legal passar a informação. Vai que alguém passa pela mesma situação que eu. Pode ser que eles ajudem de alguma maneira e você não passe pelo sufoco que passei.


Gostou do meu Diário de Bordo? Desesperador, né?


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