Rio de janeiro, Morro Dois Irmãos, vidigal

[Crônica] Trilha Dois Irmãos

Olho para o rosto da minha prima e vejo sua expressão assustada.

― Os primeiros 5 minutos são os piores! Respira fundo e tome o tempo que precisar. – digo ofegante na esperança de acalmá-la.

― Não vou conseguir. – ela diz balançando a cabeça em negativa. Vejo o desespero em seu olhar.

― Vocês estão bem, meninas? – a voz da Ana ecoa na floresta.

― Estamos sim, Ana. ― respondo. – Vamos, prima! Mesmo que nosso tempo seja diferente das outras pessoas do grupo. – pego a mão da minha prima e puxo-a para cima.

Somos 9 pessoas. Ana, que é a guia local e mais 8 turistas amadores. A Ana parece flutuar sobre o chão íngreme da mata densa. Gotas de suor caem sobre seu rosto a ponto de molhar a blusa verde, mas mesmo assim, ela não esboça cansaço.

“Os primeiros 5 minutos da trilha são os mais puxados”.

Coloco isso na cabeça e sigo em frente. Passo a passo, preocupada apenas em permanecer em pé. O caminho está limpo, traçando a rota perfeita para quem deseja chegar ao apogeu.

Aos poucos, a mata dá espaço as campinas, onde consigo respirar melhor. Não me preocupo com o ritmo dos meus colegas trilheiros, caminho na velocidade que meu corpo permite, com pausas propositais para deixar os batimentos cardíacos voltarem ao normal.

Não muito longe, um mirante natural à esquerda é nosso primeiro ponto de descanso oficial. Olho para o horizonte e vejo a massa esbranquiçada ao redor.

Ana explica que deste mirante podemos ver a Praia de São Conrado, a Pedra da Gávea e a Rocinha. Olho de um lado para o outro e a única coisa que consigo ver é o branco acinzentado de um dia completamente nublado.

Foi unânime a decepção dos meus colegas de trilha. A simpática – e esperançosa – guia disse:

― Não se preocupem. Já subi a trilha várias vezes. Em praticamente todas as vezes que o dia amanheceu nublado, ao chegarmos no topo já estava limpo. Tenho fé que hoje será assim também.

Me apeguei em sua esperança e continuei subindo, subindo e subindo… Por um momento, agradeço por não ter o sol forte sobre minha cabeça. Estar nublado, de todo não seria o fim do mundo, visto que se estivesse sol, o cansaço seria bem maior.

Algumas subidas a mais, também à esquerda, nos deparamos com o segundo ponto de parada oficial. Um mirante que, de acordo com a Ana, daria para ver a imensidão da favela da Rocinha.

Foi neste momento que comecei a sentir-me triste por São Pedro não colaborar. Ainda estava nublado e mesmo com oito pessoas rezando constantemente para que o sol aparecesse, não obtivemos sucesso.

Para nos consolar, Ana continuou insistindo que o tempo iria abrir. De fato, o clima ouviu nossa súplica e, em meio as nuvens, vimos um esboço da maior favela do Brasil.

Tento tirar algumas fotos. Sem sucesso.

Regulo a câmera fotográfica. Aperto inúmeras vezes o botão do click e nada de conseguir uma foto bonita. O cinza esbranquiçado é tudo o que aparece no visor da máquina.

A Ana foi boazinha… nos deixou ficar no mirante mais tempo que o previsto. Era desejo de todos que o sol aparecesse de vez e mostrasse a beleza do Rio aos nossos pés.

― Vamos subir, pessoal! Falta pouco. Até chegarmos ao topo, o sol vai brilhar. – Ana diz.

Confesso que perco as esperanças neste segundo mirante.

Penso na frase que minha prima disse assim que descemos do táxi para nos encontrar com a Ana, no início do passeio. A frase martela em minha mente como se estivesse em compasso com meus passos:

― Não acredito que esta nuvem está apenas no Morro Dois Irmãos.

A mata fica mais densa novamente e os galhos pontiagudos raspam em meus braços e pernas. Nesta parte, um grupo passa por nós em sentido contrário. Olho no relógio e calculo que eles madrugaram para chegar lá. A ideia deveria ser ver o nascer do sol, mas por ironia – ou castigo –, as nuvens esconderam o sol durante todo o trajeto deles.

“Que o sol brilhe quando eu chegar lá!” – digo mentalmente.

― Faltam uns 10 minutos. – Ana interrompe meus pensamentos.

A medida que subo, sinto minhas coxas arderem. Tenho quase certeza que esta parte da trilha é a mais íngreme. Penso no tempo que a Ana disse que faltava para chegar. Tento calcular tempo versus distância e percebo que não faço a menor noção de quanto seria. Fico triste por não ter aproveitado melhor as aulas de física.

― Vou ficar por aqui. – minha prima diz.

― Não, não, não! Você chegou até aqui! Faltam apenas 10 minutos. Vamos descansar e depois a gente continua! – digo. Seria como se ela desistisse já no final. Cadê “o esforço vale a recompensa”? ― penso.

― O que houve? – Ana pergunta.

― Estou com vertigem. Olhei para baixo e senti meu corpo rodar. – minha prima responde.

― Vamos esperar um pouco até você se recuperar. Depois, encoste sua mão no meu ombro e continuamos o resto juntas. Você chegou até aqui! – Ana é uma fofa enquanto tenta tranquilizar minha prima.

Acho ótimo poder parar por alguns minutos.

Minha perna realmente arde por causa do enorme esforço. Já se passaram 50 minutos desde que o homem maluco deixou a gente de kombi na entrada da trilha.

― Acho que o moço da kombi jogou uma praga sinistra e realmente o sol não vai sair. – digo em voz alta. Só me toquei que havia falado em alto e bom som, quando meus companheiros de trilha soltaram uma gargalhada.

― Aquele homem era maluco! – alguém completou meus devaneios.

Enquanto espero recuperar o fôlego, relembro o caminho que a kombi fez e o quanto o motorista era mal-humorado. Se foi ele quem jogou uma praga, jogo outra de volta:

― Que sua mulher durma de calça jeans durante um mês. – digo mentalmente. Maldito homem esquisito! Malditas palavras. “Hoje foi o pior dia que vocês escolheram para fazer a trilha. Vai ficar nublado o dia todo. Vocês são burros em querer subir assim. Vai ser em vão. Não vão ver nada… e mais alguns palavrões que não me recordo.

Formamos a fila indiana e subimos. Minha prima com a mão apoiada no ombro da Ana, eu com as pernas trêmulas e os outros esboçando sinais de cansaço visíveis.

― Chegamos! Vamos para aquela parte, pois a vista e melhor. – Ana aponta para uma área aberta, onde tem várias pessoas sentadas na pedra.

“Nossa, o pessoal madrugou mesmo para chegar aqui! Se começamos a trilha às 8h, esse pessoal acordou quando ainda estava escuro”. – penso.

Estou no topo do irmão maior.

Sinto-me realizada! De longe, ele parece ser bem pontudo. Mas lá de cima, a área é enorme! Respiro fundo e lembro que estou a 533 metros de altitude.

Olho ao redor e não vejo um pedacinho sequer de terra, água ou vegetação no evidente precipício que está em minha frente. Muito menos vejo a Praia de São Conrado, a Rocinha, Leblon, Ipanema e Cristo Redentor.

― Fiquem tranquilos, o céu vai abrir! – Ana, a guia esperançosa, fofa, companheira e atenciosa tenta nos dar esperanças.

― Deus te ouça! – digo sorrindo.

― Estamos há uma hora aqui e até agora não abriu. – a voz de um homem desconhecido interrompe nossa conversa.

― Jura? Ah não! Isso seria muito injusto. Fizemos o maior esforço para subir até aqui e ainda trouxemos um casal de portugueses. Seria uma desfeita tremenda com nossos convidados. – digo brincando ao mesmo tempo que falando a verdade. Afinal, como poderia confirmar que “todo esforço valeu a recompensa”?!

1h30 se passou e a Ana diz inconformada:

― Temos que descer, pessoal. Geralmente a gente fica uns 40 minutos aqui em cima. Como o sol não quis colaborar, deixei que vocês ficassem mais. Infelizmente já está na nossa hora.

Sem alternativa e já sem esperanças, não contrariamos. Seguimos a guia morro abaixo.


Como foi a Trilha

A descida foi mais cautelosa que a subida. Isso porque a terra seca misturada com as pedras soltas e os galhos das árvores, deixaram o terreno totalmente instável e escorregadio. Felizmente, ninguém se machucou!

Morro Dois Irmãos

No topo do irmão maior, final da trilha de subida. Sem visibilidade total! O fundo deveria ser a Lagoa Rodrigo de Freitas, Leblon, Ipanema e toda a Zona Sul. | Az.Wanderlust

No segundo mirante, conseguimos ver a Rocinha. Finalmente a nuvem resolver mudar de posição e altura, ficando apenas no topo do irmão maior. Nesta parte, conseguimos tirar fotos bem legais. Não se compara a um dia ensolarado, com o céu azul. Mas deu para perceber – e entender – o quanto é sensacional ver a cidade sobre outra perspectiva.

Perguntam se eu me arrependi de fazer a trilha. Confesso que não conseguir ver o Rio 360º foi decepcionante, mas não me arrependo de jeito algum!


Tour guiado Trilha Dois Irmãos

A Ana da Trilha Dois Irmãos é incrível e dá para perceber o amor que ela tem pelo que faz e como sente orgulho de ter nascido no Vidigal. Ela conta com detalhes a história da comunidade, as ações sociais que a empresa ajuda e preserva a mata retirando lixos dos turistas mal-educados que jogam garrafas na trilha. Sente prazer no que faz e incentiva outros moradores a crescer. Ela não troca o Vidigal por nenhum outro lugar do Rio. Eu, se estivesse no lugar dela, também não trocaria. A vista da favela é uma das mais bonitas do Rio e deu para perceber que viver na comunidade é ter uma enorme família que se ajuda e se respeita.

Morro Dois Irmãos

Ana (guia), Rayane e Ines (portuguesa). Mais uma foto sem o Rio ao fundo… =( | Az.Wanderlust

Além disso, o casal de portugueses entrou na minha vida e tenho certeza que será para sempre! Depois do passeio, ficamos e na Praia de Ipanema, depois fomos caminhando juntos à Pedra do Arpoador para ver o pôr do sol. Conheci um pouquinho daquele casal que está junto há 11 anos e confirmou a união há 1 ano, passando a lua de mel na Tailândia.

Onde almoçar no Vidigal

Depois da trilha, descemos a pé passeando pelas ruelas do Vidigal e fomos almoçar num restaurante super conhecido, o BarLacubaco. Comi um filé de peixe que acompanha arroz, feijão, farofa e batata frita. O prato é delicioso e bem servido! Super recomendo!

Enquanto estava na praia, observei atenta à nuvem que insistia em ficar apenas no topo do irmão maior. Cheguei à conclusão que ela estava lá para me avisar que preciso voltar ao topo do morro.

Se me perguntarem se o esforço valeu a pena, respondo com toda certeza:

Valeu demais! Não vi o Rio do alto, mas conheci pessoas incríveis e uma história encantadora sobre a favela do Vidigal. A trilha entrará no meu roteiro quando for ao Rio de novo. E se puder, a farei quantas vezes forem necessárias!

 


Morro Dois Irmãos

Topo do irmão maior. Nesta área é que a gente fica para admirar a paisagem. Infelizmente só vimos nuvem! Galera top do passeio! | Az.Wanderlust

Morro Dois Irmãos

O que deu para ver da Praia de São Conrado. A Pedra da Gávea nem aparece na foto… =( | Az.Wanderlust

Favela da Rocinha. Na foto não dá para ver a imensidão que é este lugar! | Az.Wanderlust

Olha como o tempo abriu quando descemos o morro e fomos dar uma espiada na Praia do Vigidal. | Az.Wanderlust


Trilha Morro Dois Irmãos

Onde fica

trilhadoisirmaos.com.br | +55 21 98394-4928 (TIM / WhatsApp) | contato@trilhadoisirmãos.com.br

Ponto de Encontro

Av. Niemeyer, 121, Leblon – no ponto de ônibus ao lado do Hotel Sheraton.

Como chegar:

De ônibus: 557, 525, Troncal 4, Integrada 2 e 9 .
De carro: tem estacionamento no hotel Sheraton (R$30,00) ou no mirante do Leblon (R$2,00 cada 2 horas).
De bicicleta: tem bicicletario no Hotel Sheraton (levar tranca).

ATENÇÃO: De segunda à sexta pela manhã (exceto feriados), a Av. Niemeyer fica com todo o trânsito só no sentido Leblon pelo que tem de chegar até o final da praia do Leblon e subir a Av Niemeyer a pé pela ciclovia (15 minutos) ou dar a volta por São Conrado.

Quanto custa

Valor: R$69,00. Reserve o passeio clicando aqui!

Tipo de trilha

Íngreme, nível moderado a intenso com desníveis.

Quem pode subir: pessoas com bom condicionamento físico.

Saiba mais sobre o passeio, clicando aqui!

Confira o Rio Top 10 da Rayane aqui e o da Marcela aqui.


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