Quem me acompanha há algum tempo, sabe que a EL-DE Haus não foi o primeiro lugar que visitei da minha Eurotrip baseada na Segunda Guerra. O primeiro foi a Anne Frank Haus, em Amsterdam (Leia como foi a visita aqui!).

Apesar de ter tido o primeiro contato físico e emocional com as histórias da Segunda Guerra em minha visita à Casa de Anne Frank, cada local que visitei depois foi tão intenso quanto. Quando desci as escadas da EL-DE, arrepiei-me mais de uma vez.

Afinal, como é a visita? Antes de contar sobre minha visita, acho interessante contar um pouco da história da EL-DE Haus e sobre o Centro de Documentação Nacional-socialista.

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Fachada EL-DE Haus | foto: Wikipedia


O que é a EL-DE Haus

É um edifício construído entre 1934 e 1935 para ser a casa e as lojas do católico e comerciante de relógios e ouro  Leopold Dahmen – EL é a pronúncia da letra “l” e DE, da letra “d”. O edifício foi projetado para ter 12 apartamentos de três quartos, lojas no térreo e um bunker (abrigo subterrâneo) no subsolo, com capacidade de até 60 pessoas, para proteção de ataques aéreos.

No verão de 1935, – por ter uma excelente localização (fica no coração de Colônia) e porque sua construção estava quase no final – a Gestapo confiscou o prédio e o novo inquilino passou a ser o Terceiro Reich. Os apartamentos viraram escritórios, o porão abrigou as celas e o bunker foi usado para tortura. A Polícia Secreta do Estado (Gestapo – Geheime Staatspolizei, em alemão) permaneceu nas dependências do edifício de 1 de dezembro de 1935 a 2 de março de 1945. Aos 6 de março de 1945, as tropas americanas chegaram na cidade.

Após a guerra, o edifício foi ampliado e anexos foram construídos nas laterais. Por isso, hoje o prédio ocupa quase um quarteirão. O novo inquilino é o próprio Governo de Colônia, que distribuiu diversos departamentos políticos nas dependências.

Somente 1980, a EL-DE Haus passou a ser um monumento histórico protegido, não sendo mais permitido obras nos locais que a Gestapo usava e em 1981 as instalações foram abertas ao público.

E em 2010, o NS-Dokumentationszentrum (Centro de Documentação Nacional-socialista) foi criado e também foi alocado nas dependências do edifício EL-DE.


O que ver no NS-Dokumentationszentrum

Apesar de nos remeter apenas ao nazismo quando ouvimos falar da EL-DE Haus, o Centro de Documentação Nacional-socialista aborda toda a história de Colônia e tem os seguintes serviços:

  • Exposição permanente, chamada de NS-Dokumentationszentrum der Stadt Köln – ou simplesmente: Colônia durante o Nacional-socialismo – trata da época que Colônia era socialista (1921-1933), quando foi tomada pelos nazistas (1933-1945), no pós-guerra e nos tempos de hoje.
  • Exposições temporárias e eventos especiais. Para saber qual está em exibição da temporada, clique aqui!
  • Projetos em parceria com as escolas e universidades da cidade.
  • Centro de documentos e pesquisa, com fotos, documentos pessoais, artigos, relatos, objetos e etc…
  • Biblioteca aberta ao público e gratuita com mais de 22.600 livros sobre o nazismo e o nacional-socialismo.
  • Gestapogefängnis (Memorial Prisão da Gestapo).

Os dois últimos foram o motivo que escolhi para visitar o local, mas acabei passeando por mais mais tempo do que imaginei na exposição permanente.

Infelizmente, deficientes físicos que não conseguem se locomover ou cadeirantes, não podem visitar o Memorial, pois o acesso é feito por escadas.

  • Endereço: Appellhofplatz 23-25, D-50667 Köln. | museenkoeln.de/ns-dokumentationszentrum
  • Horário de funcionamento: terça a sexta das 10h às 16h. | sábado e domingo das 11h às 18h. | toda primeira quinta de cada mês das 10h às 22h. | Fecha às segundas.
  • Preços: confira aqui!

Como foi minha visita ao Memorial Prisão da Gestapo

Bem, a primeira coisa que fiz foi comprar o bilhete para visitar o memorial, pegar o áudio-guia e deixar minha mochila no locker, pois assim ficaria mais à vontade. Na época, paguei 6€ (4€ bilhete + 1€ audio-guia + 1€ locker). Veja os preços atualizados aqui! O áudio-guia está disponível em francês, inglês, espanhol, polonês, russo e alemão. Escolhi em inglês.

O subsolo

Então desci as escadas, direto ao memorial. Já dei de cara com a grade da prisão e meu corpo se arrepiou. Imaginei o que estaria por vir. Então, vi as portas de ferro que estavam abertas e percebi que elas pareciam madeira quando estavam fechadas. Olhei o número do áudio e apertei play.

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Primeira impressão que se tem quando entra da prisão. | Az.Wanderlust

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Portas das celas vistas do corredor. | Az.Wanderlust

A sala dos guardas foi modificada depois da guerra. As paredes foram removidas e onde seria o banheiro, sobrou apenas um espaço vazio com o encanamento aparente.

As celas

As celas são estreitas (5 m²), com uma pequena janela gradeada de vidro grosso e sem banheiro. O guia conta que, a priori, seria para os prisioneiros ficarem lá apenas para interrogatório, mas alguns deles passaram meses naquele cubículo. Que, era para ficar um ou dois prisioneiros, mas que no desenrolar da guerra, ficavam muito mais em cada uma. Que eles eram levados ao banheiro e para tomar banho duas vezes por dia, mas ficava um balde nas celas caso eles precisassem. E que recebiam café-da-manhã, almoço e jantar, tudo em quantidades pequenas.

Confesso que fiquei desconfortável toda vez que entrava nas celas. Tinha a sensação de que alguém me trancaria lá dentro. É horrível sentir isso!

Algumas celas também foram modificadas. As paredes entre uma cela e outra foram derrubadas, ampliando o espaço interno. Agora não lembro se as paredes foram derrubadas antes ou depois de virar um memorial. Certamente perdeu-se muitos escritos com isso.

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Olha o tamanho da cela! Esquerda: cela vista de fora. Direita: cela vista de dentro. | Az.Wanderlust

As marcas dos prisioneiros

Nas paredes, marcas de caneta, batom, ferro, unhas e o que os presos achassem pelo caminho. Frases que contam a história sob o ponto de vista deles. Em várias línguas. Alguns riscos na vertical pode ser visto em quase todas elas. Acredito eu, que eles estavam marcando a passagem do tempo. Dias? Semanas? Meses? Anos? Talvez.

Vários escritos foram fotografados e hoje decoram os murais que ficam nos corredores. Como a maioria da língua era uma que eu não conhecia, foi interessante ver a tradução para o inglês. O sofrimento daquelas pessoas é nítido.

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Recados dos presos nas paredes. | foto: NSDOK

Tem uma sala super escura, de paredes pretas,  que passa um filme sobre a prisão. Nela, tem uma janela fechada. Apertei o play do áudio-guia e comecei a ouvir. Como que por impulso, sentei no banco que tem na sala e apertei o aparelho contra meu corpo.

Aquela janela branca dava para o jardim interno do prédio. Um espaço ao ar livre, que deveria ser para os prisioneiros se exercitarem, verem a luz do sol ou sair do cubículo que eram as celas. Daquela sala, sentados praticamente onde eu estava naquele momento, a Gestapo assistia aos prisioneiros. Só que em vez de observarem-nos fazendo exercícios, eles assistiam sua execução.

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Pátio onde os prisioneiros era execurados. | Az.Wanderlust

Em memória aos que foram executados lá, espelhos foram colocados ao redor. Não sei se a intenção era provocar aos visitantes a sensação de seremos observados por todos os ângulos. Mas foi essa sensação que tive quando cheguei no centro do pátio. Foi desesperador!

Depois de ver tudo isso, você acha que o horror acabou. Só que não. Tem mais um andar abaixo, onde fica o bunker e todas as atrocidades que lá foram acometidas.


Como é a Exposição Permanente

Depois de ver todo aquele horror no andar debaixo, fiquei em dúvida se queria ver a exposição principal. Precisava de ar. Perguntei para a moça se eu poderia voltar um pouco mais tarde e ela disse que sim. Tomei um chocolate quente e voltei para ver a exposição.

Ela é fantástica! Para quem gosta de história, certamente vai passar um bom tempo por lá – fiquei um pouco mais de 3h, contando com a Biblioteca e o Memorial. Dá para usar o áudio-guia e tem também vários vídeos. Fan-tás-ti-ca! Recomendo demais!


Peço desculpas pelas fotos. Quando fico entretida com algo interessante, perco todas as outras noções e esqueço-me que sou blogueira, viajante e que adoro tirar fotos. Grande parte de não ter fotos tão legais é o fato de que fico incomodada em tirar fotos quando faço dark tourism (não sabe o que é? Leia aqui!). Às vezes acho desrespeitoso, sabe?

Quando terminei de escrever esse post, fui no site oficial da NSDOK ver algumas fotos e pegar o serviço deles. Só que descobri algo fantástico. Eles tem um tour com áudio-guia online! Lógico que fiz e revivi tudo o que passei naquele dia. Dá para ver tanto o Memorial, quanto a Exposição Permanente. Muito legal, né?

Claro que não se compara à visita pessoalmente, mas dá para ter um gostinho. Para fazer a visita virtual, só clicar aqui!


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